‘A liberdade é um toque de calcanhar’ fala de amor, de futebol e de liberdade.

Existem anos transitórios. São aqueles anos em que o mundo deixa de ser o que tem sido até o momento, mas ainda não é o que vai ser depois. São anos que vão além do nosso costumeiro código alfanumérico.Simplesmente, saem da história como estudantes numa viagem prêmio ou soldados em dias de folga. Houve um tempo, na Itália, que aqueles anos que passaram, não eram nem os anos 70 nem os 80. Como se entre a Milão do bandido Vallanzasca e a Milão das baladas tivesse um instante, um lapso de tempo no qual Vallanzasca não existe mais e os bares ainda estão fechados.

Nesses anos transitórios, a Itália venceu a Copa do Mundo na Espanha e o Corinthians de Sócrates deu o que falar pelo futebol e muito mais.

Dizem que Sócrates morreu em 4 de dezembro de 2011. Parada cardíaca, depois de uma noite exagerando no consumo de álcool: fiel aquela regra de ouro que sempre ligava o campeão a uma certa quantidade de vícios fora do campo.

<<Porque com o campeão viciado eu ganho os jogos importantes, enquanto reservo o bom garoto para minha filha se casar no dia que ela quiser>>, disse o famoso treinador que foi tomado por cínico e, em vez disso, sabia muito.

Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza etc… O capitão e meio-campista da seleção brasileira na Copa de 1982. Os outros três pontos do quadrilátero foram Toninho, Cerezo, Falcão e Zico. O que é como entrar numa igreja e encontrar uma natividade de Giotto, uma crucificação de Caravaggio e uma Madona de Rafael. E antes da saída, quase escondida, uma fonte de água benta atribuída a Michelangelo. Nesse meio-campo não faltava nada: Tão exagerado que Junior (conhecido na Itália como Leo Júnior), que era tão bom quanto os outros, para encontrar uma posição, foi deixado como lateral esquerdo. E, mesmo jogando nessa posição, jogou como campeão, o que ele era, mas toda essa opulência não era suficiente, esse time queria muito mais, Junior, lateral-esquerdo, tornou-se o símbolo do Brasil 1982: uma ostentação. Uma espécie de bofetada na cara da miséria.

E depois um jornalista da << Gazzetta dello Sport >> que, alguns meses depois (da morte de Sócrates), quando Dino Zoff completava setenta anos, decidiu lhe dedicar uma recordação na primeira página com fotografia e um título carinhoso: <<Auguri Nonno Dino>>.

“Nonno” Dino? “Nonno” Dino vai lá e diga a sua irmã. Porque Zoff, os setenta anos, nunca irá completar. Como também não completaram o Batman e Topo Gigio… nem mesmo Tex Willer. Porque algumas pessoas nunca morrem, e sobretudo não envelhecem. E, sobretudo, enquanto fazemos coisas para preencher nossos dias, tais como esperar o verde nos semáforos, pagar o imposto de carro ou jogar na loteria, Zoff ainda está lá no estádio Sarrà. Com a sua idade indefinida, sua camiseta cinza com o número 1 costurado atrás e acima de tudo, com as mãos na bola que acabou de ser salva pelo defensor Oscar. Na linha do gol, a defesa mais linda da história do futebol. O que nem Batman, nem Topo Gigio nem Tex Willer saberiam fazer.

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